> Especial

mostraremos nossa fibra

Apontamos algumas das alternativas que empresas e profissionais podem adotar para manterem suas atividades em meio à pandemia do Coronavírus
(COVID-19)

Por Renan Geishofer

Mais uma vez assistimos à História sendo escrita diante dos nossos olhos. Afinal, muitos especialistas dizem que o Século 21 começou nos lamentáveis ataques terroristas do dia 11 de setembro de 2001. Naquele momento o mundo assistia, minuto a minuto, à execução de um plano milimetricamente arquitetado e que, diante da TV, parecia estar sendo reproduzido como cena de um filme de ficção. Quase 20 anos depois um novo fato espalhou insegurança por todo o globo. Porém, a ameaça é um inimigo invisível — tendo sua forma revelada apenas dentro de laboratórios. Seu nome? Coronavírus.
É fato que a doença já estava sendo comentada desde o último quadrimestre de 2019, mas a velocidade com que se alastrou pegou o mundo de surpresa. Ainda mais o Brasil, que já vem em um processo de recuperação econômica. Ao passo de que, enquanto o ponto de interrogação acerca das questões econômicas do nosso país eram discutidas em português, o Coronavírus chegou cheio de mistérios, inserindo a sociedade mundial em uma Torre de Babel com informações vindas em chinês, italiano, espanhol, inglês… E, até o fechamento desta Edição, ainda estávamos procurando a melhor definição — em nosso glossário empresarial — de verbetes que nos apontem como enfrentaremos essa situação sem precedentes em nossa sociedade — que já se modificou antes mesmo dessa batalha chegar ao final.
Como tudo o que é novo, as mudanças sociais e produtivas que o novo Coronavírus trouxeram à nossa sociedade causaram pânico. Afinal, literalmente do dia para a noite, não sabíamos nem se a nossa casa estava infectada ou não. Imaginem então os estabelecimentos do ramo alimentício onde há fluxo diário de clientes e colaboradores vindos de diversas regiões? Aflição elevada também porque o vírus mostrou que sua letalidade é superior aos impactos beligerantes de uma guerra.
No Brasil as informações começaram a chegar com mais ênfase antes do carnaval e, em 26 de fevereiro, veio a confirmação do primeiro caso de paciente com a doença. Porém, os avanços no aumento dos casos foram tão rápidos que, menos de um mês depois, o país “parou” e, assim, fomos sendo orientados pelos órgãos responsáveis para que ficássemos em quarentena domiciliar – ou quem pudesse. Em questão de dias, patrões e empregados viram que essa crise traria, inevitavelmente, um efeito cascata (ou tsunami) em todos os sentidos. Então teria que haver ainda mais colaboração de todos para minimizar os prejuízos ao longo de um período de “estiagem” cuja duração ainda é incerta. Sem contar que “situações de guerra” como esta requerem mudanças de estratégia quase que horárias. Desse modo, nesta Reportagem Especial, mantivemos contato com estabelecimentos em algumas capitais das regiões mais afetadas pela pandemia que, até o fechamento deste texto, apresentava mais de 6.800 casos e mais de 240 mortes no Brasil.
Uma das primeiras saídas encontradas foi o Delivery – operação ainda pouco explorada pelo setor. Oportunidade para os aplicativos mostrarem suas soluções ao food service que, certamente, seguirá com essa operação.

O QUE É O CORONAVÍRUS?
É o nome de uma grande família de vírus cuja estrutura tem o formato de coroa. Ele é conhecido desde os anos 1960 e causa doenças respiratórias infecciosas, como a COVID-19, que foi descoberta na China no final de dezembro de 2019 − a primeira morte causada pela nova doença foi registrada em 9 de janeiro de 2020.

Na capital federal, a Pão Dourado não sofreu tanto com a mudança porque desde a virada do ano já estava investindo mais em seu posicionamento digital que passou, naturalmente, pela adoção dos aplicativos de entrega. “Nessa nova operação reforçamos a divulgação desse atendimento que também tem opção de pagamento por QR Code — sem nem tocar na maquininha de pagamento — e as entregas sem contato físico. O que é ótimo também para evitar que nossos entregadores corram mais riscos nas entregas”, comenta o analista de marketing João Vitor Cândido.

Na Pão Dourado, houve queda de 30% no movimento da loja física e aumento de 50% no delivery

Na Palácio do Pão, as entregas diárias saltaram de 25 para 160

Por outro lado, a Palácio do Pão, em Santo André (SP), acabou nem imaginando que no começo de fevereiro já estava se preparando para os novos rumos que o mundo tomou. A empresa, de modo tímido, iniciou o atendimento através das entregas por aplicativo. Ao passo de que os vinte e poucos pedidos representavam cerca de 2% do faturamento bruto da loja. Porém, ao final de março a realidade já era bem diferente. “Hoje as entregas do delivery representam cerca de 20% do faturamento da loja. Em um sábado chegamos a fazer 160 entregas”, revela Henrique Pereira, diretor da padaria. Claro que houve queda no faturamento — quase 50% —, mas a operação mostrou-se tão promissora que a empresa também passou a adotar um sistema próprio de delivery, através de pedidos pelo telefone, tendo na operação colaboradores que se dispuseram a, literalmente, embarcar nessa nova função. “Acabamos ampliando o cardápio e o pão francês é o item que está em primeiro lugar em vendas!”, completa.

Outra situação que trouxe angústia a empresários e colaboradores foi a da incerteza na manutenção dos empregos. Nesse âmbito, a Empório de Fátima Delicatessen, em Fortaleza (CE), encontrou uma primeira solução para esse problema: a antecipação de férias. “Consultamos o sindicato para saber quais medidas poderíamos tomar e vimos qual seria o apoio que receberíamos do governo. Primeiro mantivemos as férias de quem já ia tirar nesse período. Em um segundo momento focamos nos colaboradores que são grupo de risco. Inclusive, com as férias temos um prazo maior para efetuarmos esses pagamentos gradativamente. Depois ainda vimos quais setores poderiam ser reorganizados. Assim pudemos manter o emprego, pagamos as férias e orientamos que as férias seriam um momento para se cuidarem — ainda mais quem mora mais distante. Com essas medidas procuramos também diminuir a aglomeração dentro da loja”, descreve a gerente comercial Érika Paiva.

Na Empório de Fátima, dos 190 colaboradores, 70 estão de férias

Ainda na linha dos pedidos pelos meios digitais, a Padaria & Conveniência São João, de Itapetininga (SP), lançou uma operação que, embora o começo de sua implantação esteja sendo tímido, pode lançar luz ao mercado como boa ideia a ser explorada: as compras coletivas. “Essa já era uma ideia que estava no nosso radar e, diante da situação dessa pandemia, colocamos em prática. Claro que o momento demanda que ofereçamos esse serviço o posicionando como uma solução aos nossos clientes, sem que possamos passar a ideia de estarmos querendo somente vender visando o nosso lucro. É hora de sermos mais empáticos com o próximo”, observa o empresário Márcio Duarte de Melo. Nessa modalidade de atendimento os clientes que moram, por exemplo, em um condomínio, fazem uma lista única de pedidos que são entregues de uma só vez. Assim, lojas e clientes podem encontrar nessa alternativa uma forma tanto de otimização de custos de entrega quanto na barganha por descontos — uma vez que o volume de compras tende a ser maior. E os estabelecimentos podem fidelizar ainda mais clientes. A se acompanhar…

Ainda dentro de um universo de “deliveries especiais” também há uma tendência de consumo no setor que pode se consolidar neste pós-pandemia: os Clubes de Assinaturas. Atividade comum tanto em outras áreas da alimentação como também em demais setores da economia produtiva brasileira, esse formato de atendimento garante ainda mais capital às empresas no tocante ao modo como os clientes podem receber atendimento 100% personalizado de acordo com suas preferências (até mesmo no âmbito financeiro) e, com isso, as empresas também podem garantir a entrada de dinheiro no negócio por um período mais determinado. Opção interessante também para o ramo artesanal, como é o caso da Padaria St. Chico, de São Paulo (SP). “Pensamos tanto em quem não abre mão de pão fresco quanto na segurança da nossa equipe. É um novo aprendizado para nós e, mesmo à distância, pretendemos manter nossa conexão com os clientes”, explica Helena Mil-Homens, padeira e sócia da loja. Assim, a clientela encomenda pães, frios, sucos e demais itens. Os pagamentos são via boleto (pago ao final da semana) ou cartão diretamente na loja no ato da encomenda — com taxas de entrega que variam de R$ 5,00 (até 1 km) e R$ 15,00 (até 5 km) em horários pré-determinados.

Na St. Chico, o tíquete médio dos clientes do Clube de Assinatura é de R$ 90,00 por semana

A consultoria Márcio Rodrigues & Associados apurou que entre os dias 20 e 25 de março houve queda de 40% no faturamento das empresas e redução de 50% no fluxo de clientes — muito embora tenha havido aumento no tíquete médio. Além disso, segundo o mesmo estudo, o faturamento das fabricações próprias era de 65% e hoje está em 45%. De modo que o Custo de Mercadoria Vendida (CMV) subiu de 40% para até 55%, ao passo de que o crescimento das revendas de outros produtos (por exemplo, os embalados com maior shelf life) através do delivery impacta na diminuição da margem de contribuição e do lucro bruto. O que leva a empresa a afirmar que se o cenário se mantiver, pode se projetar uma redução de 30% nos faturamentos de abril e maio. Ou seja: o foco está nos produtos de maior relevância – os da “Curva A”. Um bom caminho apresentado pela consultoria é o de aproveitar para transformar o delivery em e-commerce. Assim os estabelecimentos passam a vender tudo o que os clientes precisam para atenuar de modo imediato os impactos causados pela pandemia.

Houve uma mudança natural no movimento dos estabelecimentos. Desse modo se adequou também o modo como os alimentos estão sendo apresentados aos clientes. O conceito do autosserviço chegou com tudo. Assim, muitos negócios apostaram nos alimentos embalados e/ou prontos para consumo. Em diversos formatos, as sacolas foram sendo recheadas por pães, bolos, salgados, refeições para almoço ou jantar, sanduíches, massas, combinados de comida japonesa, entre outras delícias. Até porque o cliente passou a ter ainda mais pressa para evitar a permanência em um local fechado. Podemos garantir, sem medo, que essa já é uma nova realidade no perfil de consumo. Ainda mais no âmbito dos pequenos negócios — incluindo os artesanais. Como é o caso da Pace e Bene Padaria Artesanal, também de Sampa. Ao longo da segunda quinzena de março o estabelecimento foi testando diariamente formatos de sua operação para melhor atender tanto os clientes quanto na manutenção do negócio. Desse modo a padoca (até o fechamento desta Edição) optou por manter as portas abertas tanto no atendimento a entregas via delivery ou no atendimento de balcão. Por ter conhecimento de produção na panificação e confeitaria, o casal de sócios Marcos Martins e Katia Murakoshi assumiu os trabalhos e optou por preservar a saúde dos funcionários. “Estamos oferecendo pães e alguns itens de confeitaria e mercearia, mas já teremos que reabrir a cozinha porque estamos tendo demanda por sanduíches e almoço. 

Tudo o que colocamos na vitrine é vendido e o comportamento dos clientes está dividido entre os assustados e os que querem ficar aqui batendo papo. Os mais preocupados nem entram na loja. Pedem e pagam do lado de fora. Como estamos com demanda e produção menor, temos um custo menor de variáveis como, por exemplo, nos insumos e não está havendo problema de abastecimento. Todos os fornecedores estão disponíveis”, explica.

No âmbito dos atendimentos aos clientes, também seguem ativas empresas que fornecem, por exemplo, soluções em equipamentos – como a NOVA FORNOS. Sediada em Brasília (DF), a empresa não se deixou abater e suas operações seguem firmes, visando sempre o melhor atendimento aos seus clientes. “Estamos trabalhando a todo vapor! Ainda mais porque o setor de panificação está podendo manter a sua atuação por prestar um serviço essencial à sociedade. Como sempre trabalhamos muito, estamos com fornos e máquinas à pronta-entrega e, mesmo com essa crise, conseguimos manter nossa prestação de serviço. Inclusive, montamos uma escala de trabalho seguindo todas as orientações de limpeza e segurança que os órgãos competentes estão nos orientando. Afinal, nossos colaboradores também merecem todo o cuidado nesse momento. A sociedade precisa que continuemos produzindo”, destaca Mardson Afonso Bezerra, diretor da empresa.

NOVA FORNOS Produção a todo vapor e equipamentos a pronta-entrega

As empresas certamente passarão a ter ainda mais cuidado com os procedimentos de higiene nos seus estabelecimentos, estarão ainda mais ativas nas redes sociais, haverá ainda mais cuidado nos contratos em relação a cancelamentos ou adiamentos de eventos, profissionais podem ter aproveitado o tempo para estudarem com cursos on-line e lives… Por isso, para quem enxerga o copo meio cheio viu que nesse momento surgiram novas oportunidades. Por exemplo, para os entregadores que se mostraram ainda mais vitais à nossa economia. Quem enxerga meio vazio está muito preocupado com o rumo dos negócios. O mundo se uniu por causa desse vírus e esperamos que essa união perdure. Afinal, a principal marca do nosso mercado é a da soma de esforços de todos os seus personagens. E como vimos em um post no Instagram: “A padaria é o coração do seu bairro. Apoie a padaria e não vamos deixar nosso coração parar de bater!”. Juntos venceremos mais este desafio! Afinal, temos a teimosia em nosso DNA.

Agradecemos a colaboração das empresas que nos ajudaram a realizar esta reportagem:
Pão Dourado: @padariapaodourado
Palácio do Pão: @palaciodopao
Empório de Fátima Delicatessen: @emporiodefatima
Padaria & Conveniência São João: @saojoaopadarias
Padaria St. Chico: @st.chico
M. Rodrigues & Associados: @mrpropan
Pace e Bene Padaria Artesanal: @paceebenepadariaartesanal
NOVA FORNOS: @novafornos

Rolar para cima